Entre irmãs

Ainda era bem cedo quando Lúcia abriu a torneira da pia do banheiro para lavar o sangue cuspido após uma série de tosses e estranhas dores abdominais. Não era a primeira, mas seria a última vez que levantava antes de todos em casa para esconder que havia algo errado.

Com as mãos espalmadas sobre a pia, tentou se recompor antes de sair do banheiro, numa tentativa de fingir para si mesma que o que sentia não era nada demais: enxaguou o rosto pelo menos três vezes, escovou os dentes e ajeitou o pijama, conferindo se nenhuma gota de sangue tinha manchada a roupa. Mas já era tarde, pois os olhos não precisam ver o que os ouvidos podem escutar.

Na cozinha, Cíntia, desperta pela cólica antes do horário habitual, preparava o café enquanto ouvia os gemidos da irmã mais velha. Ficou ali, sem dar um pio, esperando Lúcia rastejar de mansinho até a sala, ligar a TV e sintonizar o canal com as mesmas notícias de ontem e de amanhã. Nesse ínterim, Cíntia ruminava em seus pensamentos como tomar coragem para enfrentar o mau humor matinal da irmã. Se nos ânimos lhe faltava ardor, sobrava preocupação em seu coração, e Cíntia era do tipo que, quando em dúvida, seguia o coração.

Cuidadosamente, encheu uma xícara e, a passos lentos, a levou para a irmã na sala, que, diante desse ato subitamente inesperado, não conseguiu esconder o susto ao ver aquela grávida de sete meses fora da cama tão cedo. Será que Cíntia teria acordado com o som de suas tosses?, se perguntava Lúcia.

O máximo que a mais velha pôde fazer foi murmurar um leve bom-dia e esboçar um fortuito movimento maxilar que deveria significar um sorriso. Logo em seguida, recebeu a xícara das mãos de Cíntia e, num átimo, revirou os olhos para a TV, fingindo ali concentrar sua atenção. Sorveu um longo e único gole de café, mal sabendo que seria tudo o que teria naquela manhã.

Foi um momento inoportuno. As tosses vieram fortes, rasgando o peito por dentro e chacoalhando a cabeça. O efeito se prolongou numa tonteira que fez Lúcia levar uma das mãos à testa. Um ataque voraz, bem em frente à irmã, extinguindo, a partir daquele momento, qualquer dissimulação sobre a sua saúde.

Elas se entreolharam e deixaram o silêncio reinar por um minuto, até que Cíntia, desobedecendo todas as recomendações médicas em função da gravidez de risco, disse a Lúcia, num tom dos mais baixos para não acordar os pais, que, por bem ou por mal, um médico não poderia mais ser adiado.

A vertigem, a raiva ou a pena de sua própria vida arrastada impedia que Lúcia desse uma resposta mais gentil à comiseração da irmã. Cíntia era cinco anos mais nova, com um salário quase duas vezes maior do que o seu e casada com um homem que a amava tanto que respeitava sua decisão de passar os últimos meses de gravidez sob supervisão da mãe.

A xícara, com café pela metade, foi largada em cima da mesa de centro, e a resposta que Cíntia recebeu da irmã foi um balançar de cabeça, uma expressão amarrada e um silêncio sepulcral. A mais velha seguiu imediatamente para o banho, enquanto a caçula ficava a pensar em uma maneira de não deixar que um assunto tão sério passasse mais um dia como se não houvesse existido. E isso tudo deveria ser feito sem alarmar os pais, um casal idoso que ainda dormia no quarto dos fundos, pois, por mais velhos que os filhos sejam e por menor que for o problema, os pais, sabendo uma minúcia, hão de intervir.

Após o banho apressado, Lúcia vestiu o traje social, pegou a bolsa e o celular e, disposta a ir ao trabalho mais cedo a fim de evitar uma discussão a plenos pulmões com a irmã, se encaminhou à garagem para sair com o carro. No fim do corredor, Cíntia agarrou seu braço direito, fazendo a irmã se virar com o puxão, e deixou seu ultimato: Lúcia iria ao médico que Cíntia marcou enquanto a mais velha estava no banho ou, quando voltasse do trabalho, teria de encarar as mil perguntas de dois idosos superprotetores. Estava sem saída.

À espera de seu atendimento, sentada com as pernas cruzadas numa sala envolta em paredes de um branco pálido, Lúcia tinha pensamentos que fluíam sobre tudo o que desejava ter alcançado até a idade em que se começa a estar mais próximo dos quarenta do que dos trinta. Contudo, a carreira não deslanchou, o amor não a encontrou e os sonhos continuavam a ser uma longa lista numa folha sulfite guardada na gaveta do guarda-roupa.

Já na sala do médico, um ar pesado dominou o ambiente. Era muito prematuro para um diagnóstico e o clínico, enclausurado em sua carranca, se limitou a ouvir, pedir exames e perguntar se a paciente era fumante. Mesmo não sendo e mesmo sem qualquer indicação do que poderia estar sofrendo, de uma infecção a um câncer, Lúcia, com base na descrição de seus sintomas, desconfiava do pior. Mas, se de fato era ou não, a realidade era que pensamentos como esse só criavam uma vida que definhava.

Ainda distante de qualquer conclusão, Lúcia pegou o celular da bolsa e, enquanto caminhava porta afora da clínica médica, escreveu uma mensagem à irmã, sob a tela molhada por uma lágrima, dizendo que não havia por que se preocupar. Nem um detalhe a mais.

Caminhou até uma praça e sentou no primeiro banco vazio que avistou. Ficou ali a observar, com um sorriso contemplativo, dois meninos que tocavam bola um para o outro, como se o mundo se resumisse naquele ir e voltar, agir e esperar.

A mulher agarrou as mãos junto ao colo, abaixou a cabeça e, sem tirar os olhos da grama rala, suspirou uma oração. E tudo o que pediu foi que a mensagem à irmã não fosse mais um de seus fingimentos.

Um sinal a 360 km

Era quarta-feira e o relógio marcava as 21 horas. Ricardo abriu o guarda-roupa e tirou de lá a camisa preta e branca do time de coração. Como que um ritual para acompanhar todas as partidas do campeonato, vestiu-a e sentiu a autoconfiança insuflar-lhe o peito. Ainda havia uma hora para o jogo, e ele, então, decidiu não perder mais um segundo, pois essa era a hora de Ana.

Ricardo e Ana não eram namorados. Pode-se dizer que, de certa forma, nem ao menos eram típicos amigos. Eles nunca tinham ido ao cinema juntos, saído para comer uma pizza ou andar de skate. Não havia como. Ele vivia na capital, a 360 km do litoral, onde a solitária Ana passava seus dias. Mas como qualquer peripécia da vida, Ricardo gostava de Ana, e ela nada percebia.

Ana era uma morena franzina, tímida, ouvia bandas de rock desconhecidas e, embora estivesse sempre rodeada de amigos, guardava dentro de si uma enorme solidão, retratada nos seus dias desperdiçados nas redes sociais. Ana tinha sofrimentos internos desconhecidos, mas, por fora, exalava alto astral.

Se por um lado isso tudo passava despercebido por quem convivesse com ela, por outro era esse seu conjunto de virtudes e fraquezas que fazia Ricardo todos os dias visitar seus perfis virtuais, já que, independente de distâncias, para o amor, em toda a sua essência abstrata, não há nada que o impeça de se manifestar.

Diferentemente de Ana, Ricardo vivia numa solidão mais ampla, como se sua vida seguisse por uma estrada que o deixava cada vez mais distante dos familiares e sem vestígio de amigos com quem pudesse compartilhar os mais singelos pormenores ou as mais duras desilusões. Mantinha-se de pé graças à sua fé, acreditando que tudo se ajeitaria através de um sinal que viesse dos céus. Sinal que, inclusive, acabaria com a “cegueira” que fazia Ana não notar todo o inusitado carinho que recebia em mensagens e comentários na internet.

Ricardo e Ana viviam em um mundo cheio de coincidências, as quais o deixavam boquiaberto a cada nova descoberta sobre ela. Vieram a se conhecer por gostarem da mesma banda, sem desconfiarem que jogavam o mesmo videogame, tocavam o mesmo instrumento, eram apaixonados pelas artes e guardavam a mesma solidão dentro de seus peitos.

Apesar da sensação de confiança que o dominava, Ricardo cometia o mesmo simples erro em todas as conversas com Ana. Por mais que tentasse, não conseguia ser direto, as palavras não saíam e, quando eram esboçadas, alguma autocensura as impedia de virem à tona. Ao mesmo tempo, nem flores e corações virtuais abriam os olhos de Ana. Tudo se finalizava em um inabalável impasse.

No fundo, Ricardo desejava que se encontrassem na mesma rota que os fizeram colidir, quando descobriram que suas vidas giravam em torno do mesmo rock californiano. Poderia ser um show num sábado quente, em uma cidade indiferente, onde o olho no olho se tornasse o sinal de que o destino os havia encontrado.

Não havia resposta para a cegueira em que Ana estava enclausurada. Seus dias eram repletos de desenhos à mão, livros de fantasia, passeios na praia e novas músicas que aprendia no violão. Sua mente se perdia na barafunda digital, enquanto a porta que poderia levá-la a um novo mundo permanecia bem à sua frente, sem ser notada.

Naquela noite, Ricardo tentou, aqui e ali, nos mais diversos assuntos, plantar na mente de Ana a semente da dúvida. Em vão, pois a jovem não abria os olhos.

E ali ele percebeu que aquela não era a noite em que ganharia seu tão esperado sinal. Não seria naquela quarta-feira, talvez nem no dia seguinte ou na próxima semana.

Já era a hora do jogo, e Ricardo não queria insistir na mesma derrota a noite toda. Ele desligou o computador e desabilitou as notificações no smartphone, mesmo sabendo que não seria necessário. Por ora, decidiu simplesmente parar, porque, mais uma vez, não se via um sinal sequer no horizonte dos 360 km que os separavam.

Não se sabe se eles se encontrariam em viagens de avião ou de ônibus, se na capital ou no litoral, se iriam ao cinema ou andariam de skate, porque Ricardo nunca disse a Ana o quanto a amava. E a solitária Ana nunca desconfiou de quão amada era. E ambos, por seu comedimento e desatenção, deixaram escapar tudo o que poderia ter sido.

O presente do século 19

Já se contava um mês desde que William tinha assistido a um filme. Mesmo que, aparentemente, isso não fosse grande coisa, era uma forma de se distrair da solidão e escapar das obrigações enfadonhas do cotidiano. O hobby, recém-descoberto, agia como se fosse um amigo do peito, companheiro, com ombros largos, daqueles feitos para anteparar lágrimas pelos mais diversos motivos. O cinema o fazia sustentar tudo: falta de dinheiro, brigas familiares, medo de demissão. Mas havia um porém: o brilho devastador do sorriso de Elizabeth.

Exceto por William, não havia uma só pessoa que, desde o raiar do dia, não estivesse contando os segundos para o fim do expediente daquela quarta-feira, véspera de feriado. Apreensivo em sua cadeira, tentava distrair os amigos de bancada contando bobagens, enquanto observava, com as mãos suadas, os minutos passarem lentamente no relógio do computador. De vez em quando, levantava a cabeça e via a cadeira de Elizabeth, na bancada ao lado, vazia, imaginando a cena que deveria acontecer em algumas horas, já que, por capricho da escala de trabalho, eles teriam apenas três horas juntos, e não oito, como mereciam.

Os filmes não tinham perdido a graça, mas apenas a atenção de William, que se dedicava somente aos mandos do coração. O que este dizia, ele fazia: começava puxando conversa com ela para, em algum momento, fazer um elogio inesperado. Uma virtude é que ele era amigos das palavras. Começava carinhosamente e, no minuto seguinte, mostrava a ela seu lado engraçado. Num piscar de olhos, conseguia ser profundo. Todas as facetas tinham o mesmo objetivo: ganhar um sorriso de Elizabeth.

Entre às 14h e às 17h, de segunda a sexta-feira, não havia – pelo menos para William – mulher mais mimada no mundo do que a franzina Elizabeth. E não havia um só dia em que ela fosse embora do trabalho sem uma surpresa. Podia ser um chocolate à sua espera deixado em sua mesa, uma estrofe de um rock romântico em uma conversa digital, um ombro amigo num momento de dúvida.

Se faltava criatividade no trabalho, havia de sobra no coração de William. E, naquela quarta-feira, quando toda a coragem se transformasse no mais genuíno gesto de carinho, Elizabeth iria entender todos os mimos que havia recebido, além dos que ainda estavam por vir.

Guardando em segredo o sentimento que fazia as manhãs serem longas e as tardes voarem, William esperou alguns colegas ao redor dispersarem, enquanto outros se focavam no trabalho. Era o momento pelo qual tanto esperou. Ligeiramente, retirou da mochila um pacote azul, com um belo laço dourado, e foi de fininho, sem que ninguém percebesse, até a recepção da empresa.

Envergonhado, pediu que a recepcionista guardasse o embrulho e chamasse Elizabeth para retirá-lo horas mais tarde naquele mesmo dia. Sem questionamentos, a recepcionista, com um sorriso de quem tinha entendido do que se tratava, disse que não haveria problema e que o pedido seria atendido.

Mesmo sabendo que ninguém tinha visto, William, no auge dos 20 e tantos anos, suava frio não acreditando no que tinha acabado de fazer. Antes de voltar à sua mesa de trabalho, pegou um copo de café industrializado na máquina da empresa e refletiu sobre seus últimos atos em relação à donzela dos sorrisos fáceis. Ali, percebeu, definitivamente, que tinha virado a chave.

Agora, tudo fazia sentido, estava claro como nunca por que seus olhos brilhavam quando Elizabeth chegava, muito mais tarde, às confraternizações no bar, e como o tempo insistia em correr a partir dali. Ou como quando cantou, dividindo os microfones com ela, com o coração versos de uma música sobre lutar por amor numa madrugada no Karaokê. Ou, ainda, nas ocasiões em que estendia horas no trabalho a fim de acompanhá-la para jantar nos intervalos dela, quando ele já poderia estar chegando em casa para mais uma noite em que filme algum o faria esquecer o sorriso daquela doce criança.

Como uma brincadeira do destino, Elizabeth chegou cinco minutos atrasada, o que, para William, pareceu tempo suficiente para uma tartaruga dar três voltas ao redor do globo. O amante silencioso respirou fundo, enxugou as mãos nas calças e, nos próximos 15 minutos, fingiu agir como se fosse mais uma tarde qualquer. Até que o telefone de Elizabeth tocou.

A jovem morena de sorriso largo interrompeu uma conversa com um colega que sentava ao lado e caminhou rumo ao inesperado, enquanto William, protegido em sua baia de trabalho, olhava para o teto, meio que sem direção, ansioso por uma reação comedida. Ela demorou muito mais do que deveria para voltar. E, nesse ínterim, ele já ia se conformando com mais um fracasso.

Não se sabe o que exatamente houve naqueles minutos, mas, agarrada a um pacote azul, Elizabeth apontou no corredor de cabeça baixa, com os cabelos cobrindo o rosto, exceto seu largo e espontâneo sorriso. William se encolheu em sua cadeira, não a encarou, mas viu tudo com o canto do olho e ouviu uma risada entrecortada, ora alta, ora contida, enquanto ela passava ao lado. Era o efeito de um livro de Jane Austen, com uma singela dedicatória sobre a graça de ler histórias de amor.

“Assim você me deixa vermelha, mocinho”. Foram as primeiras palavras que ela disse a ele naquela tarde. A partir dali, William já estava livre para voltar a ver seus filmes.

 

Desleixo

O pequeno Natanael encostou a cabeça no vidro do carro para observar a fina chuva de inverno que caía naquele fim de tarde de domingo. Sentado no banco do passageiro, fingia dar atenção ao sermão que seu pai resolveu inventar para encerrar mais um fim de semana que tinha direito de passar com o filho, que ainda não tinha se acostumado com aquela disputa por sua guarda.

Tadeu, o pai que nunca o ajudou a terminar uma lição, reclamava das notas baixas na escola. Anteriormente, o menino tinha ficado assustado com aquela postura. Mas logo o susto perdeu espaço para a decepção, quando descobriu que a instituição de ensino pressionava a família a pagar as seis mensalidades atrasadas, citando, em carta, que não havia sentido manter um aluno desleixado e, ainda mais, inadimplente.

Não que ele, aos 11 anos, soubesse o significado de “inadimplente” – e, mesmo que soubesse, nada poderia fazer quanto a isso -, mas “desleixado”, por si só, o havia magoado. O conteúdo da carta lhe foi revelado indiretamente, numa noite em que sua mãe, irada, socou as paredes e xingou o marido diversas vezes enquanto se falavam por telefone. O menino não era o único que não sabia lidar com a separação.

O percurso entre a casa dos avós, onde o pai passou a morar nos últimos dois meses, e a em que vivia com a mãe não deveria levar 20 minutos. No entanto, alguns domingueiros com a lata cheia colidiram os veículos num cruzamento em que o semáforo estava no amarelo piscante, situação nada incomum em dias de chuva nos subúrbios da cidade. Enquanto isso, Natanael se perguntava quanto tempo seu pai ficaria naquele monólogo, cheio de ordens e empáfia.

Por alguns instantes, se concentrou na voz do pai, não nas palavras, apenas no timbre. Isso porque Tadeu não era muito de papo, não sabia puxar assunto com o filho, prolongar uma conversa despretensiosa, muito menos compreender o que se passava no seu coração. O pai falava tão pouco e, agora, não morando mais na mesma casa, restava ao filho guardar na memória a sonoridade de sua voz para puxar a lembrança de experiências que não se repetiriam mais.

O sermão foi interrompido com o toque do celular de Tadeu. A tela reluziu com a imagem de uma mulher jovem e sorridente, que vestia uma camiseta regata, com um decote que deixava parte do busto à mostra. O pai logo cancelou a chamada e olhou, de canto de olho, para o menino, engolindo em seco aquele momento embaraçoso.

Natanael contou que foram pelo menos sete as vezes que seu pai saiu de perto dele com o celular ao ouvido durante aquele fim de semana. De longe, não conseguia ouvir o teor da conversa, mas era capaz de observar o sorriso bobo estampada no rosto de Tadeu. No fim das contas, o pai falou mais ao telefone do que com ele naqueles dias.

A chuva tinha perdido o ímpeto quando o carro estacionou em frente a um portão enferrujado. Natanael esticou o braço e pegou a mochila jogada no banco detrás. Para retardar a despedida, abriu o zíper e verificou se não tinha esquecido nada. Olhou para Tadeu e deu um abraço desengonçado no pai, que pigarreou antes de dizer: “Se nada mudar, até daqui a duas semanas”. O menino desceu do carro e, com um leve toque na maçaneta, fez o velho portão ranger.

Quando Natanael olhou para trás, não pôde fazer um último gesto de carinho com a mão espalmada, porque Tadeu estava com a cabeça baixa e, dois segundos mais tarde, levava o celular ao ouvido. Restou ao menino seguir em frente e entrar em casa, onde encontrou um corpo estendido no sofá. Dessa vez, a mãe não teve o cuidado de disfarçar o alcoolismo, já que quatro garrafas e um copo de vidro estavam jogados próximos ao estofado.

O filho aproximou-se da mãe com passos leves. Como ela não respondia aos sussurros de seu nome, sacudiu o seu corpo para retirá-la do sono da embriaguez. Ao despertar, a mulher fazia força para arregalar os olhos para enxergá-lo. Murmurou algumas palavras e se virou novamente, voltando à posição do sono.

Com fome, Natanael foi à cozinha, onde encarou a queda humana retratada em mais três garrafas vazias em cima da mesa. Sem habilidades culinárias – afinal, só tinha 11 anos -, pegou um pacote de bolacha e um iogurte e, depois, se trancou em seu quarto. Antes de pegar no sono, conseguiu enganar o estômago, mas não a tristeza.

Os gemidos que Luciana, a mãe, fazia ao gorfar no banheiro adjacente aos quartos tirou Natanael de seu repouso, já na madrugada de segunda-feira. Despreparado para aquela situação, o filho ficou ali, observando a mãe se recompor, até que ela pediu um copo d’água, que ele foi prontamente buscar na cozinha. Já um pouco melhor – mas ainda com a cara na privada -, ela teve a primeira conversa com o filho em dois dias, resumida a perguntas sobre o fim de semana, se tinha comido e se tinha passado frio.

Com a sensação de que mal tinha fechado os olhos, já era hora de acordar para ir à escola. Lá, aproveitando que foi um dos primeiros a chegar, se acomodou numa das cadeiras do fundo da sala. Naquele dia, como em muitos outros, Natanael não aprendeu a diferença entre substantivo e adjetivo na primeira aula, o verbo “to be” na segunda ou sobre os metais alcalinos na terceira. Havia cochilado a maior parte do tempo.

No intervalo, se espantou ao ver os amigos em uma roda com cadernos e compassos na mão. Só então percebeu que, em 15 minutos, teria prova de geometria e, mais uma vez, não tinha conseguido estudar. Mas, no fim, não haveria pelo quê chorar. Era só um menino desleixado.

Sonho interrompido

O dia amanheceu mais frio do que de costume, o que o fez se agarrar ao cobertor por mais 15 minutos. Com o atraso, vestiu a primeira roupa que viu ao abrir o guarda-roupa: uma camisa fio 80 e um blazer de tweed. O atraso era inevitável e, por isso, avisou, por WhatsApp, que chegaria mais tarde. Não teve resposta.

Aquela segunda-feira não tinha cara de segunda. E nem poderia, porque já tinha trabalhado no domingo, no sábado, na sexta. Estava cansado, mas acostumado a tudo isso. Devido à pressa, chegou esbaforido e, antes de qualquer “bom dia”, já foi ligando o computador. Mal sabia que seria a última vez.

Augusto disfarçou o cansaço jogando algumas palavras fora com os amigos de bancada. Não passou muito tempo, foi chamado a uma salinha, daquelas com cadeiras da mesma cor e uma mesa redonda – ambiente de ar pesado, e não de democracia, como sugere o formato do móvel.

Pelo tom da convocação – bem séria, sob um olhar carrancudo -, logo adivinhou que era fim definitivo de expediente. Nos 50 passos até onde receberia a notícia, lembrou-se dos mais de 400 dias em que bateu o cartão às 7h, às 8h, às 10h, às 12h, às 16h, às 20h; das madrugadas viradas; do banco de horas marcando 80 horas extras (pelo menos não sairia de mão vazia, pensou para não chorar); e das vezes que teve de cobrir uma famigerada operação da Polícia Federal, uma chacina no interior do país, os protestos daqueles que saíram do Facebook, o declínio da Petrobras no mercado financeiro, os lançamentos da Apple e a carnificina de sabe-se lá quantos grupos terroristas que atuam no Oriente.

Lembrou-se, com um nó na garganta, de todas as adaptações funcionais que teve de fazer para evitar aquele derradeiro momento.

Sentado à sua frente, um chefe inexperiente com um holerite oito vezes mais pesado do que o seu o informou sobre o “desligamento”. Não havia o que argumentar. A decisão de cima já estava tomada desde muito antes de ter topado passar mais um feriadão em plantão na redação.

Augusto respirou fundo e, antes de se despedir dos colegas, foi ao banheiro enxugar os olhos marejados.  Era difícil dizer adeus, porque era mais difícil ainda acreditar que tudo aquilo estivesse acontecendo. Soltou um “tchau” com o canto da boca, pegou mochilas e sacolas e foi embora, sem olhar para trás, com uma mistura de sentimentos negativos: a tristeza, a raiva, a desolação, o desejo de vingança.

Anunciou sua chegada em casa batendo a porta e resmungando palavrões sobre a mãe da chefia. A essa hora, o fio 80 já estava todo amarrotado e seu rosto era o reflexo da tristeza, pálido e com os olhos caídos de canto. Aquele recém-desempregado, que já se aproximava dos 30 anos, passou à tarde se sentindo inútil, fraco, menosprezado, velho para tudo aquilo. Descartado. “Acabou, acabou pra mim”, pensava consigo mesmo.

Com as mãos espalmadas no rosto, a mãe demonstrava não conseguir acreditar, enquanto o celular vibrava furiosamente sobre a mesa de centro. Era a namorada, até então informada apenas por mensagens, ligando atrás de explicações, as quais nem ele mesmo poderia compreender. Os colegas de trabalho, atônitos com a perda inesperada, muito menos.

Não foi por falta de tentativa, mas desabafar era pior. Doía, doía muito só de lembrar tudo o que tinha feito e como tinha terminado. O aluguel estava por vir, as contas pediriam socorro ao cheque especial e a faculdade, ainda não quitada, explodiria com os juros. Sua cabeça latejava diante de tanta perspectiva ruim no horizonte.

Naquela noite, Augusto só dormiu após uma série de filmes repetidos na TNT, quando o relógio já marcava que faltavam menos de três horas para uma nova alvorada.

No dia seguinte, acordou perto do que seria o horário de almoço no já extinto trabalho, após uma noite de sono inquieto. Mas a cabeça já não fervia mais.

Augusto voltou à realidade ao sentir o frio quando pôs os pés descalços no chão. Caminhou até o banheiro, enxaguou o rosto e, quando se viu no espelho, esboçou um leve sorriso. O reflexo de sua barba por fazer o lembrava de dias sem compromissos.

E, naquele momento, percebeu que dali para frente não haveria mais porque se preocupar com o próximo panelaço, outra medida de ajuste econômico, o novo aplicativo engraçadinho ou algum motim em Burkina Faso. E isso, por si só, já era o alívio necessário para recomeçar.

Linkin Park reaviva o rock com álbum cheio de guitarras pesadas

Linkin_Park,_The_Hunting_Party,_album_art_final

Bandas de rock costumam cair na irrelevância quando não conseguem mais desafiar seus limites criativos ou se prendem a seus preconceitos musicais. Em 2007, quando lançou seu terceiro álbum, Minutes to Midnight, o Linkin Park experimentou tudo, exceto fazer o mesmo new metal/rapcore dos discos anteriores que o alçaram ao sucesso. Desde então, o sexteto tem se reinventado álbum após álbum, tornando difícil rotular a banda em apenas um subgênero do rock.

Lançado mundialmente em junho deste ano, The Hunting Party, sexto álbum do Linkin Park, é completamente diferente dos antecessores – o conceitual e experimental A Thousand Suns (2010) e o energizado Living Things (2012). Mas não encare o disco como uma volta às origens. The Hunting Party é um álbum de rock, de solos de guitarra, pulsantes bateria e baixo, jam sessions e riffs que vão de Metallica ao punkrock underground. Não se trata de um disco amigo das rádios, como Hybrid Theory (2000) e Meteora (2003), com suas músicas de três minutos marcadas por refrões cativantes intercalados por raps e cantos filosóficos.

Cansados do rock Disney Channel que invadiu as rádios na segunda metade da década passada – encabeçado por bandas que parecem não gostar de guitarras estridentes -, o Linkin Park apresentou a característica principal de seu novo álbum imediatamente em seu single carro-chefe. “Guilty All The Same” é como uma porrada na cara da indústria musical – mais de um minuto e meio de introdução, guitarras e bateria mais pesadas do que o aceitável pelo padrão industrial atual, refrão nervoso cantado por Chester Bennington e um minuto de participação do rapper Rakim (chutando bundas!).

Rakim não é o único convidado do álbum. A participação de Page Hamilton, da banda Helmet, em “All For Nothing” pode assustar de início. Por que uma banda com Chester Bennington chamaria outro vocalista para mandar num refrão? Hamilton faz um brilhante trabalho, sustentado por backing vocals de Bennington, tornando esta música o momento mais new metal de todo o álbum. Embora os dois vocalistas tenham entrado em sintonia, é o rap de Mike Shinoda que rouba a cena, inclusive alternando o estilo entre os versos, do mais cadenciado ao insano.

Fica claro em todo o álbum que o Linkin Park procurou não ser repetitivo. No entanto, não é em todos os momentos que isso funciona bem. “Keys to the Kingdom“, música que abre o álbum, varia a cada verso, mas fica a sensação de que as partes não foram conectadas umas às outras como a banda já demonstrou saber fazer, principalmente com a ajuda da eletrônica do DJ Joe Hahn. Em “War“, o Linkin Park apresenta um lado punkrock. Mas logo a música nós faz querer que a banda, nesse segmento, se volte mais ao hardcore, explorado alguns anos atrás.

Um momento de excelência é a faixa “Rebellion“, com participação do guitarrista do System of a Down, Daron Malakian. Se não fosse pelas vozes de Bennignton e Shinoda, diria-se que essa é uma música do System of a Down. Guitarra, baixo e bateria se unem formando uma base bem pesada, suportando o belíssimo riff ao melhor estilo Malakian. Até mesmo os vocais parecem ter sido influenciados pelo guitarrista do System. O fã que queria gritos de Bennington não pode reclamar desta música.

Apesar de ser um álbum predominantemente pesado, baladas também aparecem, e bem. A soturna “Until It’s Gone” tem versos lentos e vai crescendo até estourar no segundo refrão. Mais uma vez, a banda demonstra que, mesmo em canções mais leves, há espaço para o instrumental marcar que The Hunting Party é um disco de rock.

Wastelands” faz bem ao unir as características tradicionais da banda, com raps e refrão marcante. Os cinco minutos de “Mark the Graves” trazem a ideia de que a música foi composta numa jam session. Bennington vai do melódico ao insano, não deixando a música cansar. O forte instrumental lembra canções obscuras do Pearl Jam em tempos mais virtuosos.

Há duas faixas instrumentais. “The Summoning” parece um erro perto dos interlúdios feitos em A Thousand Suns. Já “Drawbar“, embora confortante em meio a tanto peso, deixa a impressão de que a participação de Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine, poderia ter sido melhor aproveitada.

O álbum caminha bem para o desfecho com a bela balada “Final Masquerade”, maior candidata a hit single.

Por fim, “A Line In The Sand“. Essa música é uma espécie de “The Little Things Give You Away” (Minutes to Midnight) turbinada. É o Linkin Park apresentando o que seria uma colaboração entre Pink Floyd e Metallica em mais de seis minutos de uma explosão de som. Shinoda alterna entre o canto e o rap, antes de deixar Bennignton dominar o refrão. Brad Delson (guitarra), Phoenix (baixo) e Rob Bourdon (bateria) trabalham bem juntos. Não havia opção melhor para dar um final épico para The Hunting Party.

Com muito mais altos do que baixos, The Hunting Party fica ao lado de Hybrid Theory e A Thousand Suns como não apenas os melhores álbuns do Linkin Park, mas referências de como o rock é o único gênero que pode, constantemente, se reinventar.